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É verdade que a festa ainda não acabou, mas, como o segundo turno está às vistas, digamos que nesta metáfora ele corresponde ao nascer do sol, ou ao momento em que começam a acender as luzes

fim de festa 1O clima de fim de festa - Kristen Prahl / Shutterstock

Por Henrique Balbi*

Diz o clichê que as eleições são a festa da democracia. Mas, como todo clichê, faltou relembrar alguns pontos.

Primeiro, ninguém disse que a festa seria boa. Não foi uma daquelas em que rimos, fazemos amigos para a vida toda e criamos memórias para guardar com carinho. Foi o inverso: uma festa tumultuada, caótica e, sobretudo, desagradável para a maior parte dos convidados.

É verdade que a festa ainda não acabou, mas, como o segundo turno está às vistas, digamos que nesta metáfora ele corresponde ao nascer do sol, ou ao momento em que começam a acender as luzes. Os funcionários da limpeza estão a postos, o pessoal da segurança já está de olho no desavisado a gritar sozinho na pista. Podemos, portanto, esboçar um balanço – igual àqueles momentos mais ou menos tristes, mais ou menos bêbados, em que, quase cochilando no Uber ou caminhando até a estação mais próxima de metrô, nos perguntamos o que estamos fazendo com nossa vida.

Antes de tudo, precisamos elogiar a escolha do ambiente. Espaçoso, com mais de oito milhões de quilômetros quadrados; bem localizado, pois está bem no centro de uma placa tectônica; muito rico, por toda a diversidade de vida (humana ou não) que o habita. A julgar apenas pelo espaço, tinha tudo para ser uma festa maravilhosa.

O que nos leva a um dos primeiro problemas – não exatamente os anfitriões, mas os organizadores. Isto é, quem ficou responsável por observar as regras, garantir que fossem cumpridas, ficar de olho em quem gosta de estragar a festa dos outros. Embora tivessem prometido atenção especial, visto que havia muita expectativa para o evento, os organizadores fizeram corpo mole e relevaram coisa demais, mal fazendo jus à responsabilidade que tinham. Acharam que seria uma noite como outra qualquer, quando tudo indicava que vinha uma turma a fim de tumultuar ao máximo.

Sobre essa turma, nosso segundo problema, fica até difícil saber por onde começar as críticas. Uma das belezas da festa da democracia é que todo mundo é convidado – inclusive quem não gosta dela e quem prefere outros modelos de festa, muito menos abertos e diversificados, em que se troca a espontaneidade por disciplina e hierarquia, com um só tipo de convidado, uma só música e um só tema. É aquela história: tem gente que, por não saber dançar, não quer ver ninguém no baile.

Na festa deste ano, essa turma atrapalhou constantemente. Começaram alegando que um grupo de convidados não deveria participar da festa; fizeram de tudo para impedir o convite. Depois, alguns deles formaram sua panelinha, barulhenta e agressiva, e saíram pelo salão ameaçando quem não fazia parte dela. Chegaram a agredir convidados. Embora o líder da panelinha infelizmente também tenha sido atacado, não justifica a escalada da violência física e verbal dessa galera – alguns membros (talvez embriagados com o poder) já deram a entender que, nas próximas festas, ninguém exceto eles vai poder escolher a música, e prometem pancada em quem discordar, ou expulsão.

Os organizadores não deram bola, talvez com medo de dar corda para o tumulto – mas não se deram conta de que ele só cresce e ameaça sair do controle. Muitos convidados, mais experientes, tentam acalmar a todos: a festa é assim mesmo, o pessoal se exalta, fala bobagem, mas depois fica tudo bem. Uma hora tudo volta ao normal, todos dançam conforme a música.

Mas alguém ainda confia nesses convidados? Antes, eles diziam que os tumultuadores nem viriam, ou que passariam despercebidos; agora, o barulho ganhou tanto volume que nem sabemos mais qual música está tocando. E, para piorar, parece que alguns membros da panelinha tumultuosa – gente dos cercadinhos VIP, do camarote – pagaram ao DJ pelo direito de escolher a trilha sonora.

Com tanto bate-cabeça e tanta briga, não é de se estranhar o clima de fim de festa no salão. Muita gente desanimada, escorando-se na parede ou desabafando aos amigos, com cara de choro. Convidados que vieram de roupa colorida pararam de cantar e de dançar há um tempo; estão sentados e zonzos, a maquiagem borrada, tentando não desabar. O desespero é quase palpável, pois entre eles há muitos que não têm para onde ir, se forem expulsos da festa.

Outros convidados deixaram o pudor para trás e entraram na ciranda da panelinha tumultuosa. Gritam e riem juntos, xingam quem está de fora dela. Fazem uma coreografia bizarra, dançando numa sincronia maquinal, erguendo em triunfo os celulares brilhantes, como nos shows em que o público erguia isqueiros, mas desta vez com o WhatsApp aberto. Indiscerníveis.

Talvez no dia seguinte, quando a embriaguez passar e quando o dia a dia bater à porta, muitos deles se descubram de ressaca. Talvez tenham dor de cabeça. É possível que nem percebam quem os deixou em casa, terão esquecido sua carona de jipe. Alguns vão alegar que, a partir de uma determinada hora, não lembram mais nada que ocorreu na festa. Muito conveniente: vão tentar se eximir da bagunça e do vandalismo da panelinha tumultuosa.

E, embora ocupados tentando garantir as próximas festas, nós (fãs e fregueses, arroz de festa da democracia) arranjaremos tempo e energia para cobrar cada prejuízo. Para impedir que se repitam. Se depender de nós, nenhum convidado será expulso. Pelo contrário: mais gente vai vir, sempre. Quando se trata de festa, o nosso lema é simples – a de amanhã vai ser maior.

*Henrique Balbi é escritor e professor de literatura.

FONTE: ÉPOCA

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